Planear é liderar

PlanEm última instância, se quisermos aferir se uma empresa tem uma boa gestão bastará solicitar: mostre-me o vosso planeamento.

A importância e o significado de se planear e, em consequência, se sistematizar um planeamento não é recente. Tem milénios.

Exemplificando com base na mais importante actividade do processo de planear: o planeamento estratégico.

“A palavra “estratégia” deriva da antiga strategos, titulo Ateniense que significa comandante das forças armadas.

O cargo foi criado como parte das reformas sociopolíticas de Clístenes em Atenas 508 AC, através da combinação de duas palavras stratos (exercito) e agein (conduzir).

Com esta reforma Clístenes introduziu 10 novas divisões tribais que actuavam como subunidades militares e politicas no distrito de Atenas.

Cada tribo era chefiada por um strategos que por sua vez formavam o concelho Ateniense, debruçando-se tanto sobre os assuntos militares, como ainda com os assuntos políticos e socias, ou seja assuntos civis.

A criação do cargo reflecte o aumento da complexidade da tomada de decisão militar. A guerra tinha evoluído ao ponto de que o lado vencedor já não incidia sobre os feitos heróicos de indivíduos, mas sim, sobre a coordenação das diferentes unidades militares em formação cerrada.

Este facto, combinado com a crescente importância das forças navais, bem como das múltiplas variáveis a que os comandantes eram confrontados durante a tomada de decisão, provocaram a necessidade do aparecimento de um plano de acção, que empurraram as questões de coordenação e sinergia para a vanguarda do processo de decisão.

O Estratega

“ Se procura a fama e a admiração, certifique-se que conhece a fundo o negócio a que se propõe realizar ” . Xenofonte.

Os antigos acreditavam que a estratégia era uma tarefa de liderança. Aineias o autor do volume ocidental mais antigo dedicado à estratégia militar (escrito no seculo IV AC) estava especialmente preocupado com a forma como os líderes deviam gerir as pessoas, a terra disponível e outros recursos de forma a conseguir os melhores resultados.

Para se poder ser candidato a uma posição de estratego, expectava-se que este homem fosse o mais sábio dos cidadãos, na medida em que deveria de possuir a habilidade de combinar a perspicácia militar com a inteligência prática, ou seja, que tivesse a consciência de como as coisas funcionavam na “linha da frente”.

Estes pré-requisitos de liderança incorporavam assim, a crença de que um estratega deve de estar presente na linha da frente, no centro do campo de batalha e não apenas dirigir as suas forças militares de longe.

Era aí que o estratega podia ler o clima do campo de batalha e ir implementando e adaptando os planos de acção.

A estrutura da organização sócio-politica Ateniense desenhada por Clístenes, possibilitou o desenvolvimento da estratégia em si mesma. As novas tribos e as comunidades locais, formavam as unidades e sub-unidades do exército e foram estruturalmente equiparadas, no micro-cosmo, às cidades Estado.

Um homem que conhecesse a sua organização local nunca se perderia em questões relativas à sociedade como um todo.

Os Atenienses colocaram assim o ónus do pensamento estratégico nos ombros dos seus líderes, convictos de que estes poderiam conduzir, de uma forma correcta e eficaz, os seus desígnios através de estruturas e sistemas.

Extraído, com autorização, da nova edição, em prelo, “Estratégia passo-a-passo” de Francisco Lopes dos Santos.

Este extracto é muito importante porque a nossa meta, neste artigo, é demonstrar que o planeamento é um dos mais decisivos e imprescindíveis factores para que uma liderança se torne efectiva.

Ter uma estratégia, é fundamental. Comunicá-la, é um factor decisivo para o sucesso.

O planeamento trata das duas questões: define a estratégia e desdobra-a em políticas, processos e procedimentos.

Usa, também, outros instrumentos, como sejam a definição de objectivos, a sistematização de programas e agendas e, mais rigorosamente, a criação de orçamentos.

Na Antiga Grécia acabaram por conceber a base do planeamento e da estratégia pela necessidade de definir o papel e a posição de um líder de tipo novo.

Esta reflexão e este processo seriam suficientes para estabelecer a relação entre o planeamento e a liderança. Contudo, há muito mais a acrescentar.

O trabalho e as actividades que o integram, necessitam constantemente de orientação. Essa orientação ou vem devidamente estabelecida e explicada por quem lidera a organização ou será definida e criada por quem executa o trabalho ou pelos seus chefes directos.

Não há alternativa porque sempre que se tem de executar, seja que trabalho for, há que conceber primeiramente a sequência de tarefas e a melhor forma de as fazer e interligar.

Este desenho passa-se na mente de cada pessoa que realiza trabalho.

Daqui nasce um enorme risco que compete a liderança ultrapassar. Quando o próprio executante concebe o trabalho pode até fazê-lo bem do ponto de vista técnico, mas dificilmente o fará do ponto de vista da gestão da empresa porque não tem informação suficiente nessa área, porque não tem poder para escolher meios inovadores e, muito provavelmente, porque não tem competência de gestão.

Gerir é conseguir mais com menos meios, sejam eles materiais, tempo ou capacidades. Por isso, há sempre, certamente, uma forma que optimiza o trabalho, do ponto de vista de gestão e que permitirá conseguir o máximo resultado com o mínimo de custos e de esforço.

Neste, sentido a gestão é uma ciência de optimização das organizações. Compete, por isso, aos líderes saber optimizar e saber comunicar as melhores práticas, que tal permitem, a toda a organização. Esta é a primeira parte da missão do planeamento.

A ciência da gestão tem evidenciado uma notável evolução nesta área de planear e difundir as melhores práticas pela organização. Dos sistemas de qualidade, aos manuais técnicos de procedimentos, às instruções de inovação até aos manuais de disseminação do saber muito se tem evoluído e trabalhado sobre esta grande preocupação de executar as melhores práticas nas organizações.

Mas, o planeamento traz um segundo contributo decisivo às organizações, o qual consiste no assegurar a coerência e a consistência de tudo o que se faz nessas organizações. Esta questão é sobremaneira importante porque é através desta coerência e consistência que se dá forma ao Modelo de Gestão e à cultura organizacional, se reforçarão a motivação e o empenhamento e, finalmente, se dá consecução à missão e à visão estratégica.

O planeamento não é, portanto, apenas um instrumento de eficiência mas, também e sobretudo, um meio de garantir a eficácia da organização. Liderar é, exactamente, isto: garantir a eficácia do trabalho, das actividades e dos processos através de pessoas motivadas e empenhadas.

Sem planeamento, para que os líderes possam liderar, terão de estar em todo o lado, a todo o momento, a tomar inúmeras decisões, em simultâneo. Tal só é parcialmente possível em pequeniníssimas organizações com actividades muito simples e que estarão sempre incapazes de crescer e, pior que isso, inábeis para alavancar o talento das suas organizações e a sua própria experiência.

Sem planeamento, não há liderança.

Não há ventos que ajudem a quem não sabe o porto a que quer chegar!

por Francisco Lopes dos Santos

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