Elementos de Criação de uma Comunidade Social de Proximidade

Artigo 6 de 6: Série COMUNIDADE E VALOR

Community ValuesEste ensaio sobre COMUNIDADE E VALOR conclui com este artigo, onde numa abordagem prática e urgente, a partir de respostas a perguntas concretas, identificamos os elementos a reunir para concretizar uma visão de criação de valor através do estabelecimento de comunidades de proximidade, a nível municipal.

Quem serão os membros da comunidade?

Os membros da comunidade serão as pessoas singulares e colectivas residentes no município. Todos os membros serão simultaneamente fornecedores e consumidores na comunidade: cada vez que que fornecem recebem créditos sociais e cada vez que consomem gastam créditos sociais (cada vez que gastam créditos sociais diminuem o seu saldo de participação).

Porquê uma “moeda virtual”?

Se por um lado a adopção de uma “moeda virtual” possibilita o acerto dos termos de troca definidos na comunidade, por outro, consegue-se obter mais rapidamente o posicionamento de que não se trata de uma comunidade para ganhar dinheiro, mas que é uma comunidade de solidariedade social, onde a preocupação deverá ser a de oferecer benefícios e ser reconhecido pela sociedade no geral, podendo, neste contexto, recolher também benefícios disponíveis na comunidade.

Que produtos e serviços podem fazer parte da comunidade?

Não há qualquer limite para os produtos e serviços a integrar na comunidade. Aconselha-se que numa primeira fase se restrinjam a produtos não comercializados no comércio local, horas/homem (voluntariado), locais de exposição, promoções, bilhetes de espectáculos, e outros serviços cuja caracterização possa ser desmaterializada. O arranque de produtos físicos no “cabaz de troca” trará maior alcance à comunidade, mas como referido anteriormente, obriga a um acréscimo de custos, pois implicará um armazém e duas ou três pessoas para gestão e funcionamento.

Políticas de Troca

As políticas de troca são um dos pilares da comunidade, pelo que é essencial que sejam estabelecidas de forma clara e sejam universalmente reconhecidas como justas.

Há ainda a considerar a possibilidade de se definir uma política de preços diferenciados dos Serviços Públicos, diminuindo o valor nas horas com menor afluência e mantendo ou subindo o valor no horário de maior procura, podendo mesmo haver casos em que o usufruto possa ser totalmente liquidado com recurso a “créditos sociais” . A título de exemplo, o município pode definir que a utilização das piscinas municipais, às quartas e quintas de manhã, terá o custo de 50 créditos sociais, ou 10 euros e vinte créditos sociais.

A oferta de créditos sociais entre os membros da comunidade deverá ser livre, um indivíduo poderá oferecer os seus créditos sociais a outros indivíduos da comunidade.

Como ganhar Créditos Sociais?

Ganha-se créditos sociais pela participação na sociedade, pela entrega à comunidade dos serviços e bens constantes do “cabaz de trocas”.

Onde se guardam os Créditos Sociais?

Os créditos sociais são virtuais, isto é, não têm uma expressão física, estão guardados na “nuvem”, podendo o saldo ser consultado em qualquer smartphone, nas caixas multibanco, na Internet, etc.

Como criar valor?

As oportunidades de criação de valor terão de ser analisadas no contexto de cada comunidade específica, sendo que há sempre a possibilidade de colocação de espaços publicitários em áreas com afluência de cidadãos, em eventos sociais e, numa segunda etapa, com a comunidade já constituída, poderá existir um espaço para a realização de promoções por sms, redes sociais e outras plataformas de divulgação, campanhas essas que poderão ser vendidas na economia real ou por débito de créditos sociais conforme política de trocas a definir.

Como se evita a destruição de valor?

A destruição de valor ocorre sempre que num espectáculo ficam lugares por ocupar, pois, uma vez iniciado, não haverá possibilidade de vender esse lugar. Evita-se a destruição de valor se conseguirmos ocupar esse lugar e pode-se mesmo afirmar que há criação de valor se esse lugar for ocupado por alguém que não tenha hábitos de consumo do produto, uma vez que a ocupação desse lugar pode contribuir para aumentar a procura no futuro. Ocupar o lugar, “último minuto” (ou seja, 30 minutos antes) só será possível com sistemas em tempo real, ou que consigam levar a oferta e garantir o lugar a potenciais interessados. A oferta poderá ser feita atribuindo um valor de “créditos sociais” que serão consumidos por quem aceite a oferta.

Há distribuição de valor sempre que uma capacidade instalada não está a ser utilizada e fará tanto ou mais sentido evitar a sua destruição quanto maior for a diferença entre o valor de troca e o custo marginal de utilização dessa capacidade. Também aqui a identificação de potenciais novos consumidores não só evita a destruição de valor como cria valor, uma vez que se contribui para a criação de procura no futuro. A receita neste caso está em conjugar a troca com um valor misto, economia real e créditos sociais.

Quanto maior for a possibilidade de utilização de créditos sociais maior será o interesse dos indivíduos em participar na entrega de valor para a comunidade, pois reconhecerão benefícios por essa participação.

Como promover a comunidade

A promoção da comunidade deve alicerçar-se nos hábitos dos membros que se querem angariar. Quanto maiores forem as opções, incluindo o número de estabelecimentos físicos, onde se puderem utilizar os créditos sociais, maior será a possibilidade de sucesso da comunidade. O reconhecimento público do membro da semana, do mês, do trimestre ou do ano é também um veículo poderoso para a dinamização da comunidade, na medida que o reconhecimento pelos seus pares é uma necessidade humana.

O papel da solidariedade

Há sempre indivíduos com maiores carências dentro de uma comunidade, pessoas marginalizadas, indigentes ou votadas à pobreza por este ou aquele condicionalismo. Estes cidadãos deveriam ser beneficiados pelos critérios de atribuição de créditos sociais para utilização na comunidade.

A natureza humana leva os indivíduos a agir quando obtêm benefícios. Assim, levar as pessoas a contribuírem para a sociedade por um interesse individual, será uma receita de sucesso.

As comunidades de proximidade são essencialmente um instrumento de participação dos cidadãos para o bem comum, para a integração, para a sensibilização e educação cultural e social, para difusão de temas alternativos, para o reforço da solidariedade social.

por Fernando Femenim Santos, Administrador da SINFIC e Tuamutunga

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