A criação de valor a nível comunitário

Artigo 3 de 6: Série COMUNIDADE E VALOR

solidariadadeConcluímos com este artigo uma primeira série de três peças onde indagamos como criar valor, evitar a sua futura destruição e incentivar a participação dos indivíduos na comunidade.

No fim do artigo anterior, perguntávamo-nos: o que podem fazer as sociedades com capacidade limitada ou inexistente para o jogo da percepção, para alcançarem a capacidade de criar uma oferta desejada à escala global? Considerando que a percepção do bem-estar é cada vez mais determinada por escalas de intervenção e influência globais, estarão estas sociedades condenadas a perder qualidade de vida?

Não havendo certamente receitas mágicas, a falta de capital existente nestas sociedades – seja ele de natureza financeira, humana, estrutural, demográfica (número de clientes potenciais), de relações, de inovação e desenvolvimento, ou qualquer outra categoria – impõe que se procure vias de viabilização de projectos, de criação de riqueza e de gestão de percepções. Nesta última vertente, a criação de forças de associativismo, de solidariedade, poderão revelar-se um factor significativamente importante.

Não será, por certo, pelo salve-se quem puder que chegaremos lá. Não será também pela implementação de programas políticos da esquerda radical, já que para estes a solução passa pelo aumento do consumo interno, não tendo uma visão para além da afirmação de um direito inalienável ao bem-estar e sem a correspondente determinação do que está verdadeiramente em causa e dos custos associados, portanto, sem sustentabilidade.

O individualismo, a ambição e a ganância são parte da condição humana. Existem tratados, muitos na área económica, que defendem estes aspectos da natureza humana como virtudes. Não será, certamente, pela ilegalização, ou pela punição administrativa da ambição pessoal que obteremos resultados positivos. A solidariedade social e o associativismo não se alcançam por decreto. Têm de ser adoptados livremente pelos cidadãos e entendidos como uma vantagem natural que faz sentido no contexto de um projecto de vida positivo, e, nesse sentido, devem ser realizados.

Nas sociedades da periferia do jogo da percepção, da construção global de valor, não caberá ao Estado somente o recurso ao poder de obstruir, como notava Peter Drucker, mas sobretudo o dever de trabalhar activamente no fomento do associativismo, na promoção da solidariedade, na construção de comunidades participativas onde se privilegie o trabalho de equipa e, do mesmo modo, se invista no desenvolvimento do Capital Humano, Capital Estrutural e Capital Relacional (clientes e stakeholders), na Inovação e Desenvolvimento e na vertente Financeira, de forma a fortalecer as fundações da competitividade quer do País quer dos cidadãos.

A promoção do colectivo, da participação dos cidadãos, não pode ser feita de forma desgarrada. Tem de obedecer a um processo, com métricas, com avaliação e controlo de objectivos e riscos. As métricas permitirão avaliar o processo, alcançar os objectivos, a probabilidade e o impacto dos eventos de risco, a probabilidade e o impacto das oportunidades e, desse modo, melhorar o processo, corrigir, eventualmente os objectivos, aproveitar melhor as oportunidades e evitar os riscos. Trata-se de uma construção permanente, uma luta constante.

Se por um lado, temos de trabalhar no numerador: aumento da produtividade, aumento da oferta, aumento da procura do que produzimos, criação e aumento de Capital, criação de valor; por outro lado, haverá que trabalhar, também, no denominador: diminuição dos custos e redução das condições de destruição de valor.

Como criar valor, evitar a sua futura destruição e aumentar a participação dos indivíduos na comunidade?

Os sistemas e as tecnologias de informação podem e devem ajudar. Em primeiro lugar, permitindo condições para garantir o reconhecimento dos que participam, ajudando a premiar essa participação, evitando a destruição de valor, ajudando a criar valor, a aumentar e orientar a procura, a diminuir custos, a diminuir o aproveitamento ilícito do valor e a reduzir o custo de vida na comunidade, aumentando assim o bem-estar das populações em termos mensuráveis, portanto, concretos. Um outro eixo de actuação será na percepção do bem-estar, numa perspectiva política, minorando o efeito de campanhas que tendam a tomar o supérfluo pelo essencial, fomentando valores éticos e sociais em detrimento da primazia individualista vigente.

Há um conjunto de organizações que têm feito investigação nestes domínios e existem sistemas concebidos para apoiar as comunidades, especificamente. a Administração Pública Local e Central do Estado, na concretização destes objectivos.

A criação de uma comunidade de troca de créditos sociais, focalizada no valor de uso, em vez do valor de troca, reconhecendo as participações para a comunidade pela atribuição de créditos sociais e provendo oferta de produtos e serviços na mesma “moeda”— créditos sociais — é um dos caminhos possíveis. Os indivíduos poderão oferecer bens e serviços à comunidade, e esta terá condições para oferecer créditos como retorno, desde que se verifique valor de uso para alguém, créditos esses que o indivíduo poderá utilizar em proveito próprio, diminuindo assim o valor do balanço da sua participação para a comunidade. Indivíduos e organizações poderão ainda utilizar a comunidade para colocar valor à sua disposição – valor esse que de outra maneira não seria concretizado e por consequência ver-se-ia destruído – em troca de créditos sociais.

Por último, se conseguirmos aliar as iniciativas de informação com as iniciativas de troca de bens físicos e serviços, criando espaços físicos e virtuais para o efeito, potenciaremos condições para o crescimento do bem-estar sem que o consumo aumente na mesma proporção, permitindo maior poupança das famílias, maior folga para investimento das mesmas na educação dos seus filhos e em projectos com rentabilidade à escala local e global.

Parecem-nos preocupações relevantes que devem ser exploradas numa vertente mais prática, mais urgente e concreta, o que passamos a fazer numa segunda série de 3 artigos.

por Fernando Femenim Santos, Administrador da SINFIC e Tuamutunga

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