A procura do bem-estar

Artigo 2 de 6: Série COMUNIDADE E VALOR

Feeling Good

Este é o segundo artigo de um conjunto de 3 que constitui uma reflexão sobre como criar valor, evitar a sua futura destruição e incentivar a participação dos indivíduos na comunidade. No primeiro artigo apresentámos a fundamentação desta reflexão. Na peça que se segue exploramos o conceito de bem-estar, sua evolução e consequências num mundo cada vez mais próspero e com cada vez mais pessoas.

Se por um lado o aumento da oferta está crescer a um ritmo vertiginoso – a produção científica e a ino­vação acontecem a uma cadência sem paralelo na História da Humanidade – por outro, a produti­vidade mundial não cresce de uma forma tão incomum e rápida que permita garantir às sociedades ocidentais conseguirem manter o bem-estar dos seus cidadãos ou melhorar em termos proporcionais o bem-estar das demais sociedades. A principal fundamentação desta constatação assenta no facto de o bem-estar não ser um valor absoluto e concreto, mas antes uma percepção, aliás, parcialmente condicionada no contexto civilizacional actual pelos bens materiais e condições de qualidade de vida, nomeadamente nas vertentes de educação, saúde e lazer, disponíveis no mercado, globalmente concebido. Ocorre ainda que o aumento da oferta a nível mundial se traduz também num aumento da rivalidade entre os promotores dessa oferta, sendo esta rivalidade, por si só, um factor acrescido de risco para os capitais investidos, originando a necessidade de retornos rápidos sobre o investimento, e dessa forma, até que a concorrência seja estabelecida, proporcionar aos promotores que chegam primeiro termos de troca muito favoráveis.

A procura do bem-estar é alimentada por um grau de conhecimento global cada vez mais disseminado e facilmente disponível; o bem-estar, assim determinado, é encarado pelas populações como um direito político. No entanto, estes objectivos de bem-estar estão a crescer, como já vimos, a um ritmo que a produtividade não consegue responder, o que, por sua vez, cria um desequilíbrio complexo sob o ponto de vista político, implicando a necessidade de alocação de maiores recursos para garantir a esperança, ou uma perspectiva de esperança, que permita alcançar o objectivo do momento em termos do bem-estar expectável. Um bom exemplo, são os custos proibitivos de acesso a novas curas miraculosas para doenças antigas, como é o caso perfeito, na actualidade, a cura para a Hepatite C, Sofosbuvir, comercializada pela Gilead Sciences.

Vivemos, pois, num mundo em que a concepção de “bem-estar” se confunde, no mesmo espaço mental, as realidades objectivas – como é o caso do já referido acesso a um medicamento novo para a cura de uma determinada doença – e a subjectividade dominada por uma percepção bem mais fluída e indefinível, como seja, por exemplo, a importância relativa atribuída a uma camisola CR7 do Real Madrid. O raro habitante de um qualquer lugar recôndito do Mundo, sem televisão e rádio, terá uma percepção do bem-estar diferente da de um cidadão europeu. A percepção do bem-estar depende, naturalmente, dos factores que incluem valores e princípios locais e específicos; da informação que recebemos e da racionalidade e emotividade pessoais.

A propaganda, a publicidade e a generalidade dos meios que conduzem à construção da percepção do que necessitamos para nos sentirmos mais felizes e realizados, condiciona a nossa percepção de bem-estar. Os direitos de transmissão dos jogos da primeira liga inglesa para as próximas épocas foram comprados por 7 mil milhões de euros, um valor 70% maior do que o que vigorava no período anterior equivalente, uma evolução de valor que elucida sobre a importância da construção da percepção por parte da Humanidade. A construção da percepção de necessidades é, por enquanto, um dos mecanismos do jogo económico em que o Ocidente mantém alguma hegemonia, mas certamente não por muito mais tempo, já que a informação e o conhecimento são disseminados a um ritmo cada vez mais rápido e o nível de educação, em várias geografias, é suficientemente significativo para assegurar condições de desenvolvimento e competitividade superiores – veja-se o exemplo da Samsung, uma empresa líder mundial de origem coreana.

+++

O que podem fazer as sociedades com capacidade limitada ou inexistente para o jogo da percepção, para alcançarem a capacidade de criar uma oferta desejada à escala global?

Considerando que a percepção do bem-estar é cada vez mais determinada por escalas de intervenção e influência globais, estarão estas sociedades condenadas a perder qualidade de vida?

Exploraremos estes temas no artigo final desta primeira parte.

por Fernando Femenim Santos, Administrador da SINFIC e Tuamutunga

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>