Como criar valor e fomentar a comunidade?

Artigo 1 de 6: Série COMUNIDADE E VALOR

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Na primeira parte da série COMUNIDADE E VALOR, reflectimos ao longo de 3 artigos sobre como criar valor, evitar a sua futura destruição e incentivar a participação dos indivíduos na comunidade. Neste primeiro artigo, começamos por reavaliar o dilema eterno do equilíbrio entre o individual e o colectivo e as consequências inesperadas do desenvolvimento económico global.

O ponto de equilíbrio entre os direitos do Individuo e a primazia do Colectivo continua a ser uma das questões perenes da condição humana, ao lado do “sentido da vida”. Desde as origens da Filosofia e da Ciência, desde Platão pelo colectivismo e Aristóteles pelo individualismo, passando pelos ensinamentos e valores das religiões, ou os fundamentos políticos de “liberais” e “socialistas”, esta discussão eterna entre o indivíduo e o colectivo – e as respectivas consequências políticas, económicas, de organização social –, tem atravessado os séculos e ainda é totalmente relevante e actual hoje em dia. A natureza humana, nas suas vertentes colectivista (vida em sociedade) e individualista (valores pessoais), o papel da ambição pessoal no desenvolvimento social, o Estado e a redistribuição da riqueza – eis uma discussão de sempre, ao longo e ao largo de toda a experiência humana, uma das mais fundamentais reflexões sobre a nossa condição existencial.

Na história da Humanidade, a experiência colectivista foi levada ao seu expoente máximo no século passado, com o advento de Estados com sistemas económicos explicitamente colectivistas que acabaram por falhar. Entre os diversos factores que se podem apontar como tendo contribuído para o fracasso destas experiências, pode-se avançar a característica comum de estabelecer a consagração estrutural da ambição política de uma classe dirigente, pois os benefícios pessoais do sistema advêm de se alcançar o estatuto de dirigente, nomeadamente, porque o valor de troca era, por definição, estabelecido centralmente – em princípio, em função de critérios que deveriam ser condicionados pela valorização objectiva da força de trabalho, mas de facto através de sistemas e esquemas de influência política, ou seja, de jogos de poder. Sendo a ambição pessoal uma das mais relevantes forças motrizes do desenvolvimento, veiculá-la exclusivamente ao contexto político revelou-se objectivamente um erro, levando à estagnação e ao desmoronamento dos estados socialistas do século XX.

Na esteira do fracasso da experiência colectivista, o século XXI prefigura-se como o início de uma era de Individualismo, do primado do EU sobre o NÓS. Assiste-se a uma cultura do individualismo, em que a ganância está a tomar o lugar da ambição, a sociedade está a “produzir” cada vez mais, gente mais rica e gente mais pobre, e o fosso entre os ricos e pobres aumenta exponencialmente. A ideia que a gestão feita pelo colectivo é por inerência má e que, portanto, só no plano privado se consegue gerir bem, está completamente assumida na nossa sociedade, pelo que as privatizações e a terciarização de serviços públicos continua a prevalecer nos modelos em prática e nos novos modelos emergentes.

O século XXI é assim marcado por um contexto de competitividade global, onde o conjunto dos povos do Mundo, incluindo naturalmente as nações mais populosas (China, Índia) ou com maiores territórios (Rússia, Brasil) exercem um direito efectivamente inalienável de usufruir dos recursos da Terra, a par do Ocidente – a começar pelo consumo de energia e de carne vermelha (exemplos concretos particularmente relevantes, pelas consequências globais económicas, sociológicas e ecológicas). Nos últimos mil e quinhentos anos – desde o advento do Império Romano – os Europeus e os seus descendentes (o “Ocidente”), conseguiram estabelecer e explorar uma primazia económica no Mundo, dominando os termos de troca das mercadorias. Assim, o Ocidente conseguiu arrecadar Capital e garantir a infra-estruturação dos seus territórios, concentrando e desenvolvendo o Conhecimento que, por sua vez – como acontece com o Conhecimento – se por um lado contribuiu para a perpetuação da sua hegemonia, por outro lado, inevitavelmente, lançou as sementes da respectiva desintegração. Os ocidentais têm cada vez menos poder na determinação dos termos de troca, as matérias-primas estão espalhadas pelo Mundo e quem as tem, tem consciência cada vez mais aguda e um domínio cada vez mais claro, das leis do mercado e, por conseguinte, dos mecanismos de estabelecimento dos termos de troca.

Em termos de riqueza e acesso a educação e consequentes oportunidades, o mundo está geograficamente mais equilibrado, pelo menos em alguns aspectos: como ilustração, é hoje óbvio que está já longe o tempo em que só havia mestres internacionais de xadrez nos países ocidentais. O crescimento económico global, sobretudo na Ásia, onde se concentram 2 países (China e Índia) que no conjunto representam quase 40% da Humanidade vem tornar premente a realidade de que os recursos da Terra têm de ser partilhados de outra forma: usando outro exemplo, não há possibilidade de haver vacas suficientes para que cada ser humano se possa alimentar com 80 gramas de carne por dia. No Ocidente, o fim do domínio dos termos de troca consubstancia uma mudança de paradigma de consequências irremediavelmente brutais.

Continuaremos a explorar este tema no segundo artigo desta série.

por Fernando Femenim Santos, Administrador da SINFIC e Tuamutunga

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