Vida e Gestão: Objectivos e Riscos: Parte 3 de 3 – Onde nascem os riscos

Riscos

Porque é que o Homem é a principal ameaça à sua própria espécie?

Num dos seus poemas, sob o heterónimo Álvaro de Campos, Pessoa escreve: “És importante para ti, porque é a ti que te sentes./És tudo para ti, porque para ti és o universo,/E o próprio universo e os outros/Satélites da tua subjectividade objectiva./És importante para ti porque só tu és importante para ti./E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?” A sobreposição subjectiva do indivíduo sobre os outros, sejam pessoas singulares, um grupo, uma nação, um país: o medo, fundado em interpretações deficientes dos sinais e a codificação deficiente das mensagens recebidas, constituem as principais fontes de eventos de risco, a par dos derivados da sobrepopulação da espécie Humana e dos limites dos recursos disponíveis para a sustentar. É claro que os fenómenos naturais são também fontes de riscos, mas a dimensão do impacto está directamente ligada à sobrepopulação e à exposição a que a mesma obrigou.

Se a ambição é um dos motores do desenvolvimento da nossa sociedade (e na nossa sociedade), a ganância é uma das fontes mais perigosas de riscos que podem colocar em perigo toda a Humanidade. A complexidade deriva do facto de a distância entre uma e outra ser ténue e muitas vezes depender da percepção do contexto de cada indivíduo. Cada um de nós tem de viver com ele próprio – tu não és eu, como disse o filho de um amigo meu – tem de estar “contente” consigo mesmo, rapidamente encontra o contexto que justifica as suas acções.

Dada a natural propensão para a promoção dos valores individuais, a questão da integridade e da ética tem de ser enquadrada: está presente, por exemplo, no “Framework” do COSO de análise de risco organizacional.

A selecção, a recolha dos sinais, o seu processamento e análise, ainda que possa ser feita de forma colaborativa e dentro de parâmetros previamente estabelecidos, é em última análise feita por cada indivíduo, com uma dada personalidade, um conjunto específico de competências. Ou seja, é sempre filtrada por aspectos emocionais e racionais de foro individual, sendo que nas decisões colaborativas, o jogo de influência e poder de cada indivíduo tem um papel que não pode ser descurado.

A selecção, a recolha, os modelos de processamento e análise, as capacidades emocionais e cognitivas dos indivíduos intervenientes conduzem a uma percepção individual e colectiva da realidade, do que está a acontecer, do que poderá acontecer, que determina o comportamento, perspectivando objectivos, riscos, políticas, planos de acção, procedimentos e práticas.

Os indivíduos, as organizações, os governos, agem sempre numa perspectiva de gerar valor para si próprios, família, participantes das organizações e cidadãos. A percepção de valor é também ela criada em cada indivíduo com base nos sinais que recolhe e processa – com ou sem o apoio de meios auxiliares extrínsecos ao Homem – sendo os erros de percepção a maior causa de morte das organizações.

Caiu o avião – falha humana – dois comboios chocaram – falha humana – o desemprego aumentou – a economia não cresceu – a empresa foi à falência – alterações do mercado, …

Os riscos derivados de falhas de percepção, falta de sinais ou de análise deficiente dos sinais captados, principalmente aqueles que projectam o futuro, aqueles que nos fazem “adivinhar” o futuro, serão dos mais importantes, para as vidas pessoais, das organizações e dos países. Tal qual videntes, “adivinhamos o futuro” com base em modelos, eles próprios construídos com base numa percepção colectiva que os aceita, e determinamos os nossos objectivos e comportamentos e das organizações onde participamos com base nessas “profecias tecnológicas”.

O nível de complexidade em que vivemos vem aumentando a ritmo exponencial, quer pelo aumento dos sinais que ficam disponíveis – considerando que a capacidade dos seres humanos para tratar esses sinais é limitada, leva a um aumento da especialização e ao crescimento exponencial das interacções entre os indivíduos para uma melhor percepção colectiva – quer pelo alargamento geográfico da origem dos sinais – é hoje certo que o habitante de uma aldeia no Nepal, que antes dizia-se perdida, está em condições de poder afectar a vida de milhares de indivíduos em qualquer ponto do Planeta.

É necessário aprender mais rápido, esquecermo-nos menos, aprender mais com o futuro do que com o passado, o mesmo é dizer, ajustar e melhorar os modelos existentes, fazer novos modelos, percebendo sempre os objectivos de cada um e os riscos relacionados, pois são estes modelos, implícitos ou explícitos, que permitem gerir os riscos com maior probabilidade de acontecerem e com maior impacto.

A percepção deriva da interpretação que cada um faz dos sinais que tem disponíveis e depende da sua personalidade, dos valores, da língua materna, das línguas que fala, das comunidades a que pertence, etc.., pelo que a análise colaborativa dos sinais com inclusão de indivíduos de origens diferentes tenderá a ser mais rica, com maior probabilidade de dar origem a mensagens e comportamentos menos arriscados.

Mais do que uma teoria, uma técnica, ou prática, pensar objectivos e riscos definidos por Homens com base em sinais que eles próprios decidem captar, descodificar, processar, para voltarem a codificar e comunicar é uma forma de olhar, aprender e participar, num Mundo cada vez mais global e complexo.

por Fernando Femenim Santos, Administrador da SINFIC e Tuamutunga

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