A empresa cidadã e o gestor

Responsabilidade Social

“O BUSINESS é o único mecanismo com poder para produzir as mudanças necessárias capazes de revelar a degradação ambiental e social global”. É uma frase que nos conduz directamente à essência do que hoje se denomina a «empresa cidadã».

A globalização e a facilidade de acesso à informação e à comunicação a uma escala mundial trazem mais amplas responsabilidades às organizações dedicadas à produção da riqueza e inviabiliza uma postura linear e fragmentada face a objectivos empresariais e a processos de desenvolvimento.

A abertura dos mercados, consequência das sucessivas desregulamentações, coloca o futuro do mundo também nas mãos das organizações privadas e públicas, que até há bem pouco tempo desempenhavam um papel essencialmente económico e gera novas regras de jogo no campo estratégico e competitivo.

O prosseguimento de uma visão meramente económico-financeira pode constituir a queda numa armadilha profunda e decisiva para o evoluir das organizações e das próprias sociedades, devido à forma incorrecta como se abordarão paradoxos que, sendo impossíveis de resolver, exigem que se viva de uma forma virtuosa com a sua própria dinâmica.

Os paradoxos do desenvolvimento

O primeiro paradoxo – talvez o mais evidente nos tempos presentes – consiste no conflito entre desenvolvimento e emprego, quando abordado apenas uma óptica económica de curto prazo.

De facto, desde o início da revolução industrial que o desenvolvimento implicou sempre a criação de postos de trabalho, embora, por vezes, gerasse períodos de adaptação de características provisórias.

Com a inovação tecnológica e a consequente revolução de processos, esta dinâmica virtuosa quebrou e, actualmente, os factores geradores de liderança de custos indicam a utilização de menos homens e mais equipamentos, de mais resultados com menos horas/homem.

Se as organizações tenderem a cair na armadilha economicista, torna-se evidente que se gerará um ciclo vicioso de entropia negativa no desenvolvimento social e empresarial, porque ao gerar desemprego se debilita a procura, porque ao debilitar-se a procura se força à contracção da oferta e, por fim, porque à falta de uma harmonia social automaticamente gerada no mercado os conflitos sociais se agravarão e, provavelmente, os Estados e as organizações supranacionais serão chamadas a intervir, regulamentando e alterando, de novo, as regras do jogo.

O segundo paradoxo – que é já parcialmente sentido – consiste na dicotomia entre propriedade tecnológica material e risco de obsolescência competitiva. Até há umas décadas atrás, a actividade económica estava dividida com clareza: uns desenvolviam tecnologias; outros, produziam equipamentos; os últimos na cadeia geravam finalmente os produtos e serviços para os consumidores finais.

Toda esta dinâmica estava, mais ou menos, espartilhada em sectores com coerência e consistência própria, que criavam barreiras à entrada a quem vinha de outras origens. Mais ainda, as evoluções no sector produziram-se por saltos, relativamente bem separados no tempo, permitindo e aconselhando que a inovação tecnológica sectorial se fizesse através de investimentos no «hard», que garantiam uma considerável estabilidade durante um confortável período de tempo. Foram tempos, em que a obsolescência era essencialmente física, previsível e gerível.

Todas estas regras mudaram, ou estão em vias de mudar, por causa do «canibalismo» e da aceleração das inovações tecnológicas e, do ponto de vista estratégico, torna-se mais arriscado ter a propriedade do «hard» tecnológico do que, simplesmente, ter o usufruto sem a posse; isto é, o acesso à inovação tecnológica deve passar a ser gerido de forma «soft» através de ligações partenariais em redes com fornecedores e centros de investigação.

Tal significa que as organizações têm de actuar estrategicamente num campo mais amplo e funcionar em sistema aberto com objectivos partilhados.

O terceiro paradoxo – discutido em toda a parte – consiste na necessidade de autolimitar o crescimento para gerar desenvolvimento. A Natureza farta e abundante é um conceito só presente em histórias do passado.

Os recursos são finitos, a sua extinção é previsível, pelo que a utilização sem renovação significa alguns resultados hoje, penhorando seriamente o desenvolvimento de amanhã. A eco-gestão torna-se, assim, um factor essencial da gestão estratégica.

Uma nova concepção de competitividade

Todas estas envolventes conduzem a uma reflexão sobre o conteúdo e a forma de alcançar níveis superiores de competitividade.

Trata-se, sobretudo, de uma questão de «visão estratégica». Já em períodos anteriores, houve um conflito claro entre duas formas de visionar a competitividade: uma, a competitividade de subdesenvolvimento, que se baseia em factores como a mão-de-obra barata, a desinformação dos homens em níveis de vida infra-humanos, que apenas tem resultados no curto prazo, porque encerra, em si própria, um princípio de degradação progressiva; outra, a competitividade da Qualidade, que se baseia na inovação e na criatividade, gera o processo e o desenvolvimento económico e social.

Parece claro, que estes dois mundos em conflito desembocaram numa realidade que demonstra a grande vantagem da segunda em relação à primeira.

Actualmente, ganha forma e torna-se imperativa uma nova visão da competitividade, que poderemos denominar competitividade sustentada ou de qualidade global, a qual pressupõe que a harmonia de um desenvolvimento sistémico é a única via sustentável de vantagem competitiva de longo prazo.

Não apenas os factores internos à organização são factores de competitividade, mas também os factores envolventes, sociais e ambientais, que dão forma e conteúdo a um sistema em rede com uma visão partilhada.

Trata-se de passar da empresa egocêntrica para a empresa-cidadã.

Gestão pelos valores e código de cidadania

Segundo o autor francês Hervé Sérieyx, a harmonia necessária a uma nova visão da empresa passa por considerar uma avaliação segundo três «performances»:

  • a económica, que honra a confiança dos accionistas;
  • a social, que consiste na capacidade da empresa em tornar os indivíduos actores e autores;
  • a «societal», que se constitui pelo contributo da empresa para o desenvolvimento do seu meio envolvente.

Nenhuma delas é individualmente sustentável e apenas um sistema integrador poderá criar o círculo virtuoso automático de desenvolvimento.

Tal implica alguns códigos fundamentais, pertencentes à própria cultura da empresa «vis à vis» das principais realidades que tem de enfrentar, que poderão ser abreviados nos sete pontos que se seguem:

  • Equilíbrio entre a empresa e o homem, gerando maior autonomia e responsabilidade e criando as condições para uma perfeita harmonia entre a vida profissional e a vida familiar dos colaboradores;
  • Aliança entre a empresa e o ambiente, inovando e participando na criação de normas e regulamentações que salvaguardem o planeta, de modo a que a empresa encontra uma via competitiva e sustentável;
  • Partenariado entre a empresa e os subcontratados, tratando os seus fornecedores como clientes, anulando actos de exercício de forças desiguais, de modo a que a empresa contribua, assim, para a prosperidade total;
  • Responsabilidade de emprego entre a empresa e os excluídos, criando meios de integração destes, valorizando os homens de modo a que a empresa responda, assim, à tentação do desenvolvimento à custo do desemprego;
  • Co-desenvolvimento entre a empresa e a cidadania, exercendo a sua influência, em colaboração com as instituições e o conjunto dos actores sociais, sobre a competitividade e a valorização do seu meio envolvente e baseando-se no princípio de que servir os cidadãos é também servir a empresa;
  • Criatividade através da educação e da formação, em que a empresa se afirma como um local de aprendizagem permanente e favorece o intercâmbio com o sistema educativo, do qual é complemento indispensável;
  • Influência da empresa sobre a Europa, participando em redes europeias que alarguem os princípios da empresa-cidadã e evitem o desenvolvimento de uma Europa a duas velocidades.

Para chamar a si uma visão de empresa-cidadã, a organização tem de efectuar uma opção essencialmente cultural e estratégica, que não é demonstrável através de algoritmos económico-financeiros, mas apenas através de uma posição de liderança quanto ao desenvolvimento futuro da competitividade e das sociedades.

Estágios de desenvolvimento da ética empresarial

Lida Starke, num estudo que realizou sobre os comportamentos estratégicos, à luz de critérios de ética empresarial, concluiu pela existência de cinco estágios claramente identificáveis:

  1. A empresa amoral: Persegue os resultados a qualquer custo; entende os empregados como simples unidades económicas de produção. Não poucas vezes, empresas neste estádio são obrigadas a abandonar os seus negócios em consequência de violações das regras e valores sociais.
  2. A empresa legalista: Preocupa-se com a letra da lei, mas não com o seu espírito. Adopta normas de conduta que são apenas produto dos seus departamentos jurídicos, fiscais e de controlo.
  3. A empresa responsável: Interessa-se por ser uma empresa-cidadã, porque tal dá resultados não porque seja o que está correcto. Assume, assim, uma atitude defensiva, embora colaborante.
  4. A empresa ética emergente: Reconhece o contrato social entre os negócios e a sociedade e procura instaurar esta atitude em toda a organização.
  5. A empresa ética: Concilia resultados com ética, de tal forma que os seus colaboradores se sentem recompensados só por fazer parte de tal organização. Inclui assuntos de ética nos seus planos de formação. Tem responsáveis pela integração dos novos empregados nos princípios de ética e de cultura.

As evoluções apresentadas, que correspondem aos novos desafios estratégicos das organizações têm uma clara conotação com a decisão por uma visão estratégica e não por uma simples escolha entre cenários estratégicos de desenvolvimento. É, portanto, uma questão de cultura e de liderança organizacional.

De facto, não é possível nem ajustável quantificar ou formalizar cenários antagónicos entre uma postura de cidadania e uma atitude meramente económico-financeira, pela simples razão de que os critérios de análise viciavam o próprio princípio da cidadania.

Empresa-cidadã é, portanto, uma opção, não uma escolha. Acima de tudo, terá de haver crença de que «A crise está nas nossas consciências, não está no Mundo».

por Francisco Lopes dos Santos

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>